Participar do Congresso SINEPE-Rio 2026, que teve como tema “Educação na Era da Distração Digital”, foi uma oportunidade de olhar para uma questão que já faz parte do cotidiano de todas as escolas e famílias:o que significa educar crianças em um mundo que disputa permanentemente a nossa atenção?

Mais do que uma discussão sobre telas, tecnologia ou Inteligência Artificial, o congresso trouxe uma reflexão muito maior sobre infância, aprendizagem, relações, saúde emocional e sobre o próprio papel da escola.
Vivemos em uma época marcada pela velocidade. Informações chegam o tempo todo, as respostas são imediatas, as imagens se sucedem rapidamente, os estímulos estão por toda parte. A tecnologia nos oferece entretenimento, comunicação e conhecimento com uma facilidade que nenhuma outra geração experimentou da mesma maneira.
Nesse cenário, talvez uma das habilidades mais importantes que precisamos ensinar às nossas crianças seja justamente aquela que parece mais simples: aprender a permanecer.
Permanecer em uma história até o final. Permanecer diante de um desafio que não se resolve imediatamente. Permanecer em uma conversa, escutando o outro. Permanecer em uma brincadeira sem precisar de um estímulo externo. Permanecer diante do tédio e descobrir o que pode nascer dele.
Durante o encontro, diferentes especialistas abordaram a atenção sob perspectivas distintas, mas uma ideia apareceu de maneira recorrente: atenção não é apenas uma característica individual da criança — ela também é construída a partir das experiências que oferecemos.
A resposta não está em transformar cada experiência de aprendizagem em entretenimento, tampouco em exigir que a criança permaneça concentrada por longos períodos. A resposta está em oferecer experiências que tenham significado.
Uma criança se envolve quando existe curiosidade, quando há uma pergunta a investigar, quando algo desperta encantamento, quando pode experimentar, criar, conversar, fazer hipóteses, errar e tentar novamente.
A atenção nasce também do encontro entre a criança e aquilo que faz sentido para ela. E por isso, a escola não precisa competir com o algoritmo.
Existe uma tentação de pensar que, para recuperar a atenção das crianças, a escola precisa tornar suas experiências cada vez mais rápidas, interativas e estimulantes. Mas talvez essa seja uma competição que a escola não precise — e nem deva — vencer.
O algoritmo foi construído para capturar atenção.A escola tem outra missão: oferecer aquilo que nenhum algoritmo consegue substituir completamente — presença, vínculo, corpo, experiência, diálogo, cultura, natureza, convivência e sentido.
Por isso, em uma época de excesso de estímulos, talvez experiências aparentemente simples ganhem ainda mais importância.
Uma história contada sem pressa. Uma conversa olhando nos olhos. Uma brincadeira inventada pelas próprias crianças. Uma investigação que leva dias ou semanas. Uma semente que precisa ser plantada e cuidada antes de crescer. Uma receita preparada coletivamente. Uma pintura que não precisa ficar pronta naquele momento. Um passeio pela natureza em que é preciso observar para descobrir.
Essas experiências parecem simples. Mas, pedagogicamente, são extremamente sofisticadas: elas ensinam a criança a observar, esperar, escutar, imaginar, criar, persistir e se relacionar.
Talvez uma das maiores provocações da era digital seja justamente a nossa relação com o tempo. Estamos nos acostumando a respostas imediatas — queremos saber agora, ver agora, receber agora, resolver agora.
Mas a infância precisa de tempo. Tempo para brincar. Tempo para criar. Tempo para experimentar. Tempo para errar. Tempo para elaborar uma ideia. Tempo para construir uma amizade. Tempo para aprender. E até mesmo tempo para não fazer nada.
O tédio, tão rapidamente eliminado pelos adultos, também pode ser um território fértil para a infância. Quando não oferecemos uma atividade pronta, uma tela ou um entretenimento imediato, abrimos espaço para que a criança descubra o que fazer com o próprio tempo. E é justamente aí que muitas vezes aparecem a imaginação, a criatividade e a autonomia.
E onde entra a Inteligência Artificial?
A discussão também trouxe um debate inevitável: a Inteligência Artificial já faz parte do nosso presente e estará cada vez mais presente no futuro das nossas crianças.
A pergunta, portanto, não pode ser simplesmente se devemos ou não utilizar tecnologia. A pergunta precisa ser:que capacidades humanas precisamos fortalecer em um mundo em que as máquinas serão cada vez mais capazes de produzir respostas?
Se uma máquina pode responder, precisamos ensinar a criança a perguntar.Se uma máquina pode produzir um texto, precisamos ajudá-la a ter algo próprio para dizer. Se uma máquina pode criar uma imagem, precisamos desenvolver repertório, sensibilidade e pensamento criativo. Se uma máquina pode encontrar informações, precisamos ensinar a selecionar, interpretar, questionar e verificar.
Quanto mais poderosa se torna a tecnologia, mais importante se torna aquilo que é essencialmente humano.
O que isso significa para a Infanzia?
Ao voltar desse encontro, uma das sensações mais fortes foi a de que muitas das experiências que valorizamos na Infanzia ganham ainda mais sentido diante dos desafios contemporâneos.
Quando uma criança participa da horta, ela aprende sobre natureza, mas também aprende sobre espera. Quando cozinha, aprende sobre alimentação, mas também sobre processos, transformação e autonomia. Quando escuta literatura, aprende linguagem, mas também exercita imaginação, memória, escuta e permanência. Quando brinca com outras crianças, aprende a negociar, frustrar-se, criar regras, esperar e considerar o outro. Quando pinta, constrói, investiga ou experimenta, aprende que nem tudo acontece de forma instantânea.
E talvez seja justamente esse um dos grandes papéis da escola contemporânea:não afastar as crianças do mundo em que vivem, mas ajudá-las a habitá-lo de maneira mais consciente.
Educar na era da distração significa compreender que uma infância saudável precisa de equilíbrio entre o digital e o concreto, entre a velocidade e a espera, entre a informação e a experiência, entre o individual e o coletivo.
E significa lembrar que, antes de preparar uma criança para um futuro tecnológico, precisamos garantir que ela tenha vivido plenamente o presente.Porque, em um mundo que disputa cada vez mais a atenção das nossas crianças, talvez uma das maiores responsabilidades da escola seja justamente ensinar a estar presente.
Karla Righetto
