Há um ritmo próprio na infância que, muitas vezes, se perde na pressa dos adultos. Na tentativa de proteger, estimular e oferecer sempre o melhor, enchemos as horas das crianças com compromissos, telas, propostas prontas, ideias contínuas para “não deixar que se entedie”. Mas a infância não floresce no excesso. Ela floresce no espaço.
É preciso lembrar: as crianças não precisam ser entretidas o tempo todo. Elas precisam de tempo. Tempo para vagar pelo próprio pensamento, para inventar o que ainda não existe, para escutar o vento, para desenhar caminhos invisíveis no chão da sala ou no quintal da avó. É nos intervalos — nesses pequenos vazios — que nascem a imaginação, a autonomia e a curiosidade verdadeira.
As férias chegam como um sopro. Um convite delicado para reaprender a viver um pouco mais devagar.
Um tempo em que relógios perdem importância e as rotinas se tornam mais leves, quase líquidas. As férias são o território perfeito para desligar telas, diminuir estímulos, abrir janelas e permitir que a criança reencontre o mundo sem intermediações digitais.
Tempo de recuperar algo essencial: a presença. A presença no brincar despretensioso, na conversa que se alonga, no ócio que se transforma em invenção. A presença no corpo que descobre, nos olhos que observam, nas mãos que criam.
É nesse espaço de liberdade que as crianças desenvolvem recursos internos que nenhuma tela pode oferecer: a paciência, a criatividade, a capacidade de sustentar o próprio brincar e de construir significados pessoais para o mundo.
Neste período de férias, fazemos um convite às famílias: permita-se parar. Permita que seu filho pare. Permita que o tédio apareça, porque ele é fértil. Permita que a casa fique mais silenciosa, ou mais barulhenta com brincadeiras inventadas, mas menos guiada por estímulos artificiais.
As férias são o tempo da infância respirar. E quando a infância respira, tudo ao redor ganha vida: as relações, a descoberta, o olhar para o outro, o vínculo consigo mesmo.
Que este seja um tempo de encontros verdadeiros: com a natureza, com a família, com o brincar e com aquilo que, silenciosamente, faz crescer. Quando desaceleramos, a infância finalmente aparece.
Karla Righetto – Diretora Pedagógica da Escola Infanzia

