“Na minha época, não era assim.”
Muitas famílias nos procuram para conversar sobre o processo de alfabetização e iniciam suas indagações com esta frase.
Antes, considerava-se ser alfabetizado aquele que assinava seu próprio nome. Porém, reconhecer letras e saber juntar sílabas, por si só, não basta.
Saber as letras não garante a formação de um leitor eficaz e um autor de seus próprios textos.
Ser letrado é saber usar a leitura e a escrita de acordo com as demandas sociais. O letramento torna o indivíduo apto a organizar discursos, interpretar e compreender textos e a refletir sobre eles.
O que define hoje uma alfabetização de qualidade? O que garante a formação de leitores críticos e autores de seus próprios textos?
Hoje temos referências e pesquisas que comprovam a ineficácia de alguns métodos de alfabetização. Os métodos tradicionais, em geral, não contemplam a leitura e a escrita como práticas culturais.
Ler e escrever são entendidos como processos de decodificação e codificação, em que as crianças aprendem a lidar com as unidades da língua (fonemas, letras, sílabas, palavras soltas). Mas mal conseguem ler produzindo sentido, e escrever textos autorais, criativos, com estrutura sintática, rico em vocabulário e na dimensão discursiva.
Na Infanzia, temos a clareza que alfabetizar é se comunicar. Ensinamos as crianças a escreverem convencionalmente sem a necessidade de recorrer ao ensino de letras, sílabas e fonemas isolados.
Como nos alerta Goulart (2014) a alfabetização com base em textos se fortalece com a possibilidade de os alunos mergulharem nos sentidos dos textos que leem e inventarem novos sentidos para os textos que escrevem.
Com uma geração com excesso de imagens – fotográficas, vídeos, tela – ler e escrever, de forma prazerosa e com sentido, se torna a cada dia necessário e urgente. Quando você se põe a escrever, você não se põe a escrever pensando nas letras, você se põe a escrever pensando no sentido que você vai dar.
É importante olharmos para as crianças como leitoras e produtoras de textos, antes mesmo do 1° ano do Ensino Fundamental. Olhá-las na perspectiva do que já são e do potencial que têm.
Leitoras e produtoras de textos não só em linguagem verbal, oral e escrita, mas em outras formas de expressão, como a pintura, a escultura, o cinema, o teatro, a música, a dança, entre outras linguagens históricas e culturais.
Ler e escrever é prática diária. O convívio com a escrita e a leitura em movimentos diários agrega interesse, importância e desenvolvimento no próprio processo.
Um ambiente alfabetizador – aquele em que há uma cultura letrada, com livros, textos digitais ou em papel, um mundo de escritos que circulam socialmente, se torna um terceiro educador. Os ambientes, assim como os materiais didáticos, são fundamentais nos processos de alfabetização.
Como confirma Ferreira (2002), a partir das possibilidades oferecidas pelos ambientes, desde que planejados por educadores também potentes e atentos, maiores serão as aproximações das crianças com os recursos nele contidos e, por consequência, o desenvolvimento voluntário de práticas e vivências que evidenciem e favoreçam a alfabetização.
Uma escola preocupada com o pragmatismo de resultados imediatos nega os processos de aprendizagem dos sujeitos, suas histórias e experiências. Deixa de perceber a inteligência das crianças e seus pensamentos complexos.
Por isso, desde pequenos, as crianças da Infanzia são estimuladas a argumentar, criar textos coletivos, manipular e identificar livros literários, realizar leituras do mundo que as cercam e as constituem.
Escrevem textos coletivos e individuais, criam histórias que se transformam em livros e peças teatrais. Aprendem que podem e devem escrever suas próprias narrativas.
Neste ano, de 2023, no exame internacional chamado Pirls (Progress in International Reading Literacy Study), o Brasil ocupou a 39ª posição entre 43 países na avaliação das habilidades de leitura e escrita de crianças de 9 a 10 anos. A alfabetização, em pleno século XXI, ainda é uma emergência em nosso país.