Qualquer literatura referente ao desenvolvimento infantil afirmará que de 0 a 3 anos a mordida é um comportamento comum entre as crianças. Comum é, mas não devemos, como educadores e pais, menosprezar ou ignorar este comportamento. Comum não significa sem importância.
Entretanto, precisamos pensar que a mordida não segue a lógica de uma perspectiva adulta. Nem sempre se trata de machucar ou de se tornar uma criança agressiva ou que está reproduzindo uma ação que ela presenciou. Morder é uma forma de se comunicar, explorar, um substituto para aquilo que as crianças ainda não conseguem expressar por outra via.
Até aproximadamente os 3 anos, a mordida, mesmo em crianças que são capazes de verbalizar, se revela como expressão de frustração, raiva, indignação, conflito, alegria, atenção, medo, defesa, dentição e regulação emocional.
Estar na escola é estar no mundo. Por esse contexto passam muitas variáveis. As crianças, ao aprenderem a socializar, ficam diante de estímulos e desafios que envolvem emoções ainda não elaboradas e dificilmente externalizadas de forma consciente ou da maneira como os adultos entendem. Aos adultos, cabe observar, mediar e buscar antecipar a ação, se colocando atento aos momentos mais impulsivos.
O que fazer quando a mordida acontece?
Diante da mordida que já ocorreu, cabe uma conversa, acolher os envolvidos e principalmente ajudá-los a nomear, descrevendo as situações. Por exemplo: “Entendo que você tenha ficado triste porque queria o brinquedo, mas agora está com ele. Podemos esperar até ele acabar ou brincar com outra coisa? Morder machuca seu amigo. Agora vamos cuidar do amigo.”
A criança mordida, além do acolhimento, também precisa ouvir e entender o que aconteceu: “Seu amigo te mordeu e você sentiu dor? Vamos cuidar dessa dor. O amigo não conseguiu ainda conversar para pedir o brinquedo, mas ele vai conseguir na próxima vez”.
A criança que morde precisa ser conduzida à compreensão de que fez algo que não é aprovado e de que existem outras formas de resolver as situações. Somente dizer “não pode” ou brigar, não agrega repertório para a elaboração das ações e emoções.
Em todo caso, acusar, julgar, enquadrar um culpado, também não contribui. Pelo contrário, na maioria das vezes, leva a rótulos da “criança que morde ou que bate” não dando a ela a oportunidade de ocupar outras possibilidades de ser no grupo: a criança que canta, que desenha, que ajuda, por exemplo.
Nem minimizar as situações tão pouco exaltar em demasia. Dar as devidas medidas e entender que o tempo da criança não é imediato e os desafios demandam processos a longo prazo que exigem atenção e cuidados constantes.
As crianças são múltiplas em suas habilidades e potencialidades. Um olhar cuidadoso – escola e família – é primordial para o pleno desenvolvimento cognitivo, social e emocional.